PAI
Durante trinta e oito anos, alguns meses e dias,
eu carreguei um sobrenome
como quem carrega uma chave de porta que nunca se abriu
e sigo a carregar...
Chamavam de "pai" —
mas eu nunca soube o som dessa palavra na minha boca
sem que ela tivesse gosto de vazio.
Tu partiste.
E agora esperam que eu te chore.
Mas como se chora o que nunca foi?
Como se enterra um deserto?
Nietzsche me ensinou a duvidar dos deuses,
Bauman me alertou que laços frágeis viram cortes profundos,
Cazuza me mostrou que verdades doem mais que mentiras.
Gal Costa doce e solar, como um verão que se recusa a morrer, me dá fôlego.
Então sinto Elza Soares, como um trovão,
que me ajuda a encarar o passado sem baixar os olhos.
Mas me recolho em Cristo,
pois, apesar da teimosia, foi quem me ensinou a perdoar o que nunca pediu perdão.
E é nesse ponto que meu peito treme:
perdoar não é esquecer.
É lembrar sem rancor.
É deixar o morto com os mortos,
e escolher, mesmo ferido, continuar sendo filho —
não teu, mas do Amor que não falha.
Talvez tu não soubesses como ser pai.
Talvez foste só mais um homem quebrado,
navegando num mundo sem bússola.
Não te justifico —
mas também não te julgo.
Eu escolho outro caminho.
Hoje, pai, eu te entrego ao silêncio de Deus.
A esse Pai que, mesmo quando cala,
ainda está.
Que Ele te receba.
E que me liberte.
Site Franklin Mano
Enviado por Site Franklin Mano em 14/09/2025
Alterado em 15/09/2025